
Chamava-se Carmecita e por odiar este nome sempre mentia para estranhos inventando pseudônimos, ou até mesmo heterônimos, afinal, tudo o que a pobre desejava era ser outra pessoa, noutra vida. Morava em um pequeno - e feio - apartamento no centro de São Paulo onde ouvia toda noite palavrões, gemidos, rock and roll misturado às vozes cheias de voracidade dos jovens que frequentavam aquele lugar. Carmecita trabalhava em um salão bem ostentoso em Vila Mariana e já estava cansada de ver todas aquelas madames com suas faces já sem alguma expressão - devido a tantas plásticas - que só abriam suas bocas para soltar disparates em relação à vida alheia.
- Mas você viu que a Glorinha estava usando um Chanel legítimo no pulso? Fiquei perplexa, deve ter trocado de marido e mandado o desembargador para o espaço !
- Ou então ainda está com os dois, essa sim é esperta! Disse outra madame.
Carmecita ficava todo o tempo em pé, com seus pés cheios de calos e uma pele amarelada, olhos apáticos por nada poder fazer , a não ser ouvir as senhoras desocupadas e roer as unhas de tanto tédio e cólera, por estar ali e principalmente por não saber quando tudo aquilo iria mudar. Chegava em casa por volta das onze horas da noite com os ouvidos cheios, depois de ser obrigada a ouvir tantas palavras sujas e obscenas no caminho de volta para casa. Cafetões, travestis e até garotas de programa. Todos se concentravam ali, na famosa Rua Augusta. O que restava era a pobre passar de cabeça baixa e fingir que nada ouvia. E para ela não era difícil já que constantemente permanecia com a cabeça abaixada, andava olhando para o chão, tinha medo de tudo que estava ao redor, medo da cidade, das pessoas, medo daquele paradoxo de São Paulo, o luxo e o cheiro ruim, as meninas estilosas e lindas que cheiravam cocaína pechinchada à beira do asfalto. Medo de um dia estar ali, medo de ser para sempre a mesma Carmecita.
- O que fazer? Estou completamente perdida. Murmurou.
- Nem posso rezar, pois em deus não creio. Tudo bem, dizer que não creio é radical, mas tenho minhas dúvidas. Afinal, não é porque estou perdida que irei acreditar em tudo o que dizem, em tudo o que escrevem. Como posso acreditar em algo ou alguém que não posso ver? Como posso acreditar em deus se ainda estou aqui?
(Foi quando se pegou monologando e prosseguiu...)
- Além de feia e perdida, já estou louca! Falando sozinha... É tudo culpa dessa vida medíocre, é tudo culpa dos livros de Dostoiévski !
Carmecita nas poucas horas vagas frequentava a biblioteca da cidade, lia de Marguerite Duras ao próprio escritor do famoso ''Crime e Castigo'', e até se via um pouco neste livro. Viver assim era o seu castigo, ter um nome desse então, nem se fala! Mas qual teria sido o seu crime?
Seus pais morreram cedo num acidente e ela vivera durante muito tempo com uma tia gorda e mal amada chamada Neide. Tia Neide parecia ser uma mulher frustrada por ser a única das filhas que nunca se casou, era infeliz e nem conteúdo tinha, passava as tardes assistindo novelas e quase nunca lia, a não ser revistas de fofocas das celebridades. E foi aí que a jovem decidiu tentar a vida no Centro de São Paulo, longe do mau humor da tia, longe do seu verdadeiro Eu, ali não poderia usar heterônimos, ali não poderia sonhar. Sempre que chegava em casa do trabalho, mesmo cansada, ainda acendia sua nicotina barata e passava algumas horas sonhando. Gostaria de ser atriz de cinema, uma escritora famosa, quem sabe artista plástica. Só queria ser notada. Afinal, quem notaria uma recepcionista de um salão de beleza? Ela não via glória alguma em sua profissão, aliás, para ela, aquilo nem profissão era. Até as garotas de programa de sua rua eram mais notadas e vistosas. Carmecita olhava para suas unhas e pensava:
- Preciso ao menos comprar cigarros de melhor qualidade, se bem que é irônico e até estúpido pensar assim. Cigarro tem qualidade? Todos matam do mesmo e eu ainda pago pra isto! Só queria ser mais elegante... Preciso passar um esmalte nessas unhas de tabagista compulsiva.
E quando também começou a pensar que fazia um bom tempo que homem algum não se apaixonava por ela, já se sentia morta, não mais vaidosa como era quando menina. Ela precisava fazer algo, ter alguma idéia, ou poderia se tornar uma réplica - perfeita - da tia Neide. Foi quando deu um pulo do único sofá velho que tinha, pegou seu maço de cigarros e foi dar uma volta, enxergar a rua Augusta e os prazeres que aquele lugar poderia lhe dar de alguma forma, desta vez andando com a cabeça erguida para ver melhor a beleza das garotas que vendiam seus sexos e todo o neon libidinoso das ''boates''. Quando escutou uma voz máscula e vulgar chamando no meio da multidão:
- Ei, você, garota! Venha conhecer nossas lindas mulheres. Você pode beber cerveja de ótima qualidade por apenas ''doze contos'' até as duas da manhã. Aqui é um lugar calmo, ninguém vai mexer com você, eu garanto!
(E ela pensando...)
- Imagino e nem duvido, afinal, é um lugar de família, vários homens deixando suas filhas e esposas em casa e fazendo orgia aqui, trocando as suas supostas damas pelas prostitutas.
Foi quando decidiu entrar e beber, precisava fazer algo fora da rotina e naquele momento não havia nada melhor que embriagar-se para monologar antes de dormir, embriagar-se para esquecer seu verdadeiro nome, sua tia gorda e infeliz, seu apartamento com um único sofá velho na sala que por falta de móveis tornava-se grande, embriagar-se para esquecer quem era ela: ninguém. Aquele lugar cheirava a gozo e tinha uma música ruim, mas tudo bem, pelo menos estava matando sua curiosidade afogando-se em álcool sem que ninguém a perturbasse. Prestava atenção naquelas mulheres ainda jovens, algumas com o corpo tênue, ninfetas... E pensava o que poderia ter acontecido para que elas tivessem parado ali em cima do palco deslizando em mastros. Quando murmurou :
- Hum! Se bem que elas devem aproveitar melhor a vida. Afinal, são desejadas, mesmo que por pouco tempo e superficialmente, são vaidosas e sensuais e dançam maravilhosamente bem.
Quando foi interrompida bruscamente por uma voz áspera:
- E aí? Não tem nem um pouco de vontade de estar ali no lugar delas? Se quiser, posso te dar essa oportunidade!
- Me dar a oportunidade de vender meu corpo? É bem irônica a sua proposta . Não acha?
- Depende do seu ponto de vista... Aqui você ganha um dinheiro bom e pensa, você fala que isso é vender o corpo e tem muita gente aí que nem vender faz, já dá de graça pra qualquer malandro!
- Mas eu não sou assim.
- Não disse que é, só tô dizendo que tem muita riquinha por aí que vai pra cama com um, dois... E no fim das contas os caras nem lembram o nome delas e pra completar, nem ganham dinheiro com os manés! (Falou orgulhoso pelo seu argumento, soltando uma risada alta e intolerável. )
- É, tem uma certa razão no seu modo de pensar. Acho que essas meninas que vendem o corpo são tão criticadas pela sociedade porque elas fazem e assumem, não é feita a ''sujeira'' por baixo dos panos como esses caras engravatados que frequentam essas boates para sair da rotina familiar.
- Então... Não quer experimentar? Vai lá e se troca, depois combinamos tudo. Prometo que não deixo algum cara enconstar em você, fica por sua conta!
Sentindo-se tentada, Carmecita pensou que talvez aquela fosse a única, ou quem sabe, a mais rápida forma de mudar, de deixar de ser ela mesma. Seria Karen, Inês, Nina, quem ela desejasse ser. Poderia mentir e fantasiar sobre o seu passado, pois talvez não voltaria a ver aqueles homens engravatados e se os visse, eles também não poderiam ir além da sua carne, exatamente porque não se pode amar um personagem. Ela seria uma Carmecita mundana, cheia de curvas desejadas, deslizando em mastros de todos os tipos, sendo meio prostituta e meio psicóloga daqueles homens carentes. Seria fonte de prazer e se vingaria da forma mais cruel das madames que a tratavam mal no salão de beleza em Vila Mariana.